Se você projeta edificações e vai manter uma assinatura só, escolha o Revit: ele coordena planta, corte, elevação e quantitativo a partir de um único modelo. Se o seu trabalho é desenho 2D, detalhe e leitura de arquivo alheio, o AutoCAD resolve por muito menos — e o AutoCAD LT, que quase ninguém menciona, resolve por menos ainda.
Três coisas costumam decidir junto com o preço, e este guia responde as três: você não perde seus DWG ao migrar (o Revit lê e escreve DWG nos dois sentidos), o Revit exige mais máquina que o AutoCAD, e o Decreto BIM já está em vigor para obra pública federal.
A pergunta "qual é melhor" quase nunca tem resposta útil, porque os dois fazem coisas diferentes. A pergunta que decide é outra: o que você produz e quanto pode pagar por isso. Este guia responde as duas com número em cima da mesa.
A diferença que explica todas as outras
Tudo o que separa os dois cabe numa frase: o AutoCAD desenha, o Revit constrói. No AutoCAD, uma parede é um conjunto de linhas — o arquivo não sabe que aquilo é parede. No Revit, uma parede é um objeto que carrega altura, espessura, camadas, material e área.
Daí vem tudo o mais. A coordenação automática do Revit existe porque há um objeto único por trás de todas as vistas. A liberdade do AutoCAD existe porque não há objeto nenhum — só geometria, que você dobra como quiser.
Quanto custa cada um (preço oficial na Autodesk Brasil)
Esta é a parte que a maioria dos comparativos omite, e é onde a decisão realmente acontece.
| Software | Plano anual | Equivale por mês | Mensal avulso |
|---|---|---|---|
| AutoCAD LT | R$ 1.950 | R$ 163 | R$ 245 |
| AutoCAD | R$ 7.480 | R$ 624 | R$ 930 |
| Revit | R$ 10.735 | R$ 895 | R$ 1.350 |
Três leituras que mudam a conversa:
- O Revit custa R$ 3.255 a mais por ano que o AutoCAD — cerca de 44% acima. É diferença real, mas menor do que a fama sugere.
- O AutoCAD LT custa 26% do AutoCAD cheio. São R$ 5.530 de diferença por ano para quem só desenha em 2D.
- Assinar mês a mês é caro. No AutoCAD, o mensal avulso sai 49% mais caro por mês que o plano anual. Só compensa para um projeto pontual e curto.
O AutoCAD LT que quase ninguém menciona
Se o seu trabalho é desenhar planta, corte e detalhe em 2D, abrir arquivo .DWG de terceiros e imprimir prancha, o AutoCAD LT faz isso por R$ 1.950 por ano. Ele é o mesmo AutoCAD para desenho 2D.
O que ele não tem: modelagem e visualização 3D, personalização por API e AutoLISP (aqueles scripts que o escritório acumulou ao longo dos anos) e os conjuntos de ferramentas especializados, como o AutoCAD Architecture. Para muito arquiteto que usa o AutoCAD só como prancheta digital, nada disso faz falta — e a economia paga uma máquina nova em dois anos.
O que cada um faz melhor, na prática
O AutoCAD ganha quando você precisa de liberdade e velocidade em cima de linhas: um detalhe construtivo fora do padrão, um levantamento rápido, um esquema que não representa objeto construído. Ganha também na compatibilidade — o .DWG é a língua franca do desenho técnico, e cedo ou tarde chega um arquivo de terceiro que só abre bem ali. Se o seu uso é esse, vale ver como montar a planta baixa no AutoCAD do zero à prancha.
O Revit ganha em tudo que envolve repetição e consistência: documentação de um edifício inteiro, quantitativo de material, coordenação com estrutura e instalações, detecção de conflito antes da obra. Quanto maior e mais repetitivo o projeto, maior a vantagem.
E ele perde onde o AutoCAD brilha: para um detalhe muito específico, que não corresponde a nenhum elemento construtivo real, o Revit é mais engessado. Por isso tanta gente detalha em 2D dentro do próprio Revit, ou exporta para o AutoCAD só naquele desenho.
"Se eu migrar, perco meus DWG?" — a pergunta que trava todo mundo
Esta é a objeção que mais impede escritório de mudar, e ela tem resposta objetiva: não. O Revit lê e escreve DWG nos dois sentidos.
| O que você precisa | Como se faz | O que acontece |
|---|---|---|
| Receber um DWG e usar como base | Insert > Link CAD | O desenho entra vinculado: se o projetista mandar versão nova, você recarrega e o Revit atualiza |
| Trazer o DWG para dentro do projeto | Insert > Import CAD | O desenho vira parte do arquivo. Na caixa você define unidade, escala, cores e camadas |
| Entregar em DWG para quem pediu | File > Export > CAD Formats > DWG | Cada categoria do Revit cai numa camada CAD — uma porta sai automaticamente na camada A-DOOR |
| Ajustar o nome das camadas exportadas | File > Export > Options, aba Layers | Você reconfigura o mapeamento inteiro para o padrão do seu escritório ou do cliente |
| Abrir um .rvt no AutoCAD | — | Não existe. O caminho de volta é sempre por exportação |
E não é só DWG: o Revit também importa e vincula DXF, DGN (MicroStation), SKP (SketchUp), SAT e 3DM (Rhino) — além do IFC, que é o formato aberto de troca entre plataformas BIM.
A consequência prática. Migrar não joga fora o acervo. Você continua recebendo o DWG do calculista, continua entregando DWG para a prefeitura ou para o cliente que só tem AutoCAD, e continua abrindo aquele levantamento de 2014. O que muda é onde o projeto nasce, não com quem ele conversa.
O Revit roda no meu computador?
Ele pesa mais, e a razão não é opinião: o AutoCAD carrega um desenho por vez; o Revit carrega o edifício inteiro — todas as vistas, todas as tabelas, todas as famílias — e mantém tudo sincronizado enquanto você trabalha.
Sobre número exato de memória e placa de vídeo, uma ressalva honesta: a Autodesk publica uma tabela de requisitos que muda a cada versão, e ela é a única fonte que vale. Não faz sentido este guia cravar um número que envelhece em um ano — o link oficial está nas fontes, e é lá que você confere a sua versão antes de comprar máquina.
O que dá para dizer com segurança, por experiência de uso:
- O que mais muda a sensação de velocidade é SSD, não processador. Abrir e salvar um modelo grande em disco mecânico é sofrimento desnecessário.
- Memória é o que estoura primeiro em projeto de porte. O sintoma clássico não é o programa fechar: é ele ficar lento ao trocar de vista e ao girar o 3D.
- Placa de vídeo dedicada só pesa de verdade quando entra render em tempo real ou navegação em modelo pesado. Para modelar e documentar, ela não é o gargalo.
- O tamanho do modelo importa mais que a máquina. Modelo mal organizado, cheio de DWG importado e família pesada, trava computador bom. Modelo limpo roda em máquina modesta.
Para o AutoCAD a conversa é mais simples: ele roda confortavelmente em máquina que hoje se considera comum. Se o seu computador é apertado e o orçamento não permite trocar, isso conta na decisão — e é mais um argumento a favor de começar pelo AutoCAD LT.
Comparativo direto
| Critério | AutoCAD | Revit |
|---|---|---|
| Metodologia | CAD (desenho) | BIM (modelo com informação) |
| Alterar algo | Manual, vista por vista | Automático em todas as vistas |
| Quantitativo | Contado à mão ou por bloco | Tabela extraída do modelo |
| Colaboração | Arquivos separados (XREFs) | Modelo central compartilhado |
| Detalhe 2D livre | Melhor | Mais engessado |
| Curva de aprendizado | Mais suave no início | Íngreme: exige mudar o raciocínio |
| Exigência de máquina | Menor | Maior — modelo pesa |
| Lê e escreve .DWG | Nativo | Importa, vincula e exporta DWG |
| Abre arquivo do outro | Não abre .rvt | Abre e vincula .dwg |
| Custo por ano | R$ 7.480 (LT: R$ 1.950) | R$ 10.735 |
O Decreto BIM e o que ele já mudou
Não é tendência distante: é norma federal em vigor. O Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020, estabelece o uso do BIM em obras e serviços de engenharia da administração pública federal, em três fases:
| Fase | A partir de | O que passa a exigir BIM |
|---|---|---|
| 1ª | 1º de janeiro de 2021 | Projetos de arquitetura e engenharia de construções novas, ampliações e reabilitações |
| 2ª | 1º de janeiro de 2024 | O anterior mais a gestão de obras, incluindo reformas |
| 3ª | 1º de janeiro de 2028 | Projetos e gestão de obras, cobertura ampliada |
Na prática: as duas primeiras fases já estão valendo. Quem quer trabalhar com obra pública federal, ou com escritório que atende esse mercado, não escolhe mais entre CAD e BIM — a escolha já foi feita pelo edital. O Revit é o software BIM mais adotado no Brasil, mas o decreto exige a metodologia, não a marca: Archicad e outros também atendem.
Qual aprender primeiro? A resposta honesta
Depende de quanto tempo você tem antes de precisar do primeiro emprego.
- Se você precisa de estágio nos próximos meses: comece pelo AutoCAD. É mais rápido de aprender, ainda está em quase todo escritório, e a maior parte das vagas de estágio pede desenho 2D e leitura de .DWG antigo.
- Se você tem um ou dois anos de faculdade pela frente: aprenda o básico de AutoCAD em algumas semanas e invista o resto no Revit. É onde está a diferença salarial e onde o mercado está migrando.
- Se você já desenha bem em AutoCAD: a próxima competência é Revit, sem dúvida. E prepare-se para desaprender: o erro mais comum de quem migra é tentar usar o Revit como prancheta, desenhando linhas em vez de modelar paredes.
Uma vantagem que estudante costuma ignorar: a Autodesk oferece licença educacional gratuita para estudantes e professores, mediante comprovação de vínculo — as regras e o passo a passo estão em quem tem direito à versão estudante. Dá para aprender os dois sem pagar nada.
Escolhido o caminho, o próximo passo é prático: o roadmap de Revit em três níveis organiza o que estudar em cada fase, e a configuração inicial do Revit evita que o primeiro arquivo já nasça torto.
Qual escolher pelo seu perfil
| Seu perfil | Escolha | Por quê |
|---|---|---|
| Estudante | Os dois, grátis | Licença educacional cobre ambos; comece pelo AutoCAD e migre |
| Autônomo de reforma e interiores | AutoCAD LT | Trabalho é 2D; R$ 1.950/ano contra R$ 10.735 |
| Escritório pequeno de residencial | Revit | Repetição de projeto é onde o BIM se paga |
| Escritório de médio e grande porte | Revit + 1 AutoCAD | Modelo no Revit; o AutoCAD entra para compatibilizar arquivo de terceiro |
| Quem atende obra pública | Revit | Decreto 10.306/2020 já exige BIM |
| Projeto pontual, prazo curto | Mensal avulso | Evita o compromisso anual, mesmo saindo mais caro por mês |
A conta que decide não é o preço da licença — é o custo do retrabalho. Um projeto residencial médio muda de layout três, quatro vezes antes de ir para a obra. No AutoCAD, cada mudança dessas é refazer planta, cortes, elevações e a contagem de material à mão, e é exatamente aí que nasce o corte que não bate com a planta e chega assim na obra. No Revit, é uma alteração e todas as vistas seguem. A diferença de R$ 3.255 por ano equivale a menos de um dia de trabalho por mês. Se o BIM te poupar um único erro de compatibilização que só apareceria no canteiro, já pagou o ano inteiro — e essa é a razão pela qual escritório que migrou raramente volta.
Fontes e referências
- Autodesk — AutoCAD e Autodesk — Revit: preços oficiais da assinatura no Brasil, consultados em julho de 2026.
- Autodesk — AutoCAD LT: preço e limites da versão 2D.
- Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020: texto oficial e as fases de implantação do BIM.
- Autodesk — Import and Link Options: formatos que o Revit importa e vincula, e o que cada opção faz.
- Autodesk — Layer Mapping para exportação DWG/DXF: como as categorias do Revit viram camadas do AutoCAD na exportação.
- Autodesk — Requisitos de sistema: especificação atual de cada versão, que muda a cada ano.
- Autodesk Education: licença gratuita para estudantes e professores.




