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História e Estilos

Escada Santos Dumont: Como Funcionam os Degraus Alternados

Escada de estrutura metálica aparente com degraus de madeira em uma sala de pé-direito alto
Resposta rápida
A escada Santos Dumont é a de degraus alternados: cada degrau serve a um pé só, com recortes que se intercalam de um lado e do outro.
Essa geometria permite uma inclinação bem maior que a de uma escada comum ocupando menos comprimento em planta — por isso ela aparece onde o vão é apertado, como mezanino e sótão. O nome homenageia Alberto Santos Dumont e a lógica dele de tirar o máximo do mínimo.

Você precisa ligar o mezanino ao piso de baixo e só sobrou um vão de 1,80 m de comprimento. Uma escada comum ali não fecha: ela precisaria de uns 4,50 m para vencer o mesmo pé-direito. É exatamente esse impasse que a escada de degraus alternados resolve.

Como funciona o degrau alternado

Numa escada comum, todo degrau é inteiro e recebe qualquer um dos dois pés. Na Santos Dumont, cada degrau é recortado: metade dele é larga, a outra metade é estreita — e os recortes se alternam, um para a direita, o seguinte para a esquerda.

O resultado é que cada degrau serve a um pé só. Você sobe pisando com o pé direito nos degraus recortados à direita e com o esquerdo nos recortados à esquerda, alternando sem escolha.

Como cada pé usa um degrau diferente, a escada pode ter o dobro da altura por degrau sem que o passo fique impossível. É daí que vem a economia de espaço: menos degraus, menos comprimento em planta.

Escada de degraus alternados vista de frente: cada degrau é recortado de um lado, e os recortes se intercalam entre esquerda e direita
Uma escada Santos Dumont de verdade. Repare no recorte: um degrau é largo à direita, o seguinte à esquerda, e assim por diante — é isso que faz cada degrau servir a um pé só e permite a inclinação alta em pouco comprimento.
Comparação em corte entre uma escada comum, com inclinação em torno de 32 graus, e a escada de degraus alternados, com inclinação em torno de 55 graus, mostrando a diferença de comprimento ocupado em planta O MESMO PÉ-DIREITO, DOIS COMPRIMENTOS ESCADA COMUM — cerca de 32° precisa de ~4,50 m DEGRAUS ALTERNADOS — cerca de 55° claro = pé esquerdo escuro = pé direito ~1,80 m mesmo pé-direito Cada degrau serve um pé só — por isso ele pode ser o dobro de alto. Metade dos degraus, metade do comprimento em planta. O preço é a inclinação, que exige descer de costas.
Vencendo o mesmo pé-direito, a escada de degraus alternados ocupa menos da metade do comprimento. Diagrama: Arqpedia.

Medidas: quanto tem cada degrau

Não existe uma norma brasileira que dimensione especificamente a escada de degraus alternados. O que existe é prática consolidada de projeto, e ela gira em torno destes números:

Faixas usuais de projeto — escada comum × degraus alternados
Escada comumDegraus alternados
Espelho (altura)16 a 18 cm20 a 25 cm
Piso (parte larga)28 a 32 cm25 a 30 cm
Piso (parte estreita)10 a 14 cm
Largura do lancea partir de 1,20 m em uso comum60 a 80 cm
Inclinaçãocerca de 30° a 35°cerca de 50° a 60°
Para vencer 2,70 m~4,50 m de comprimento~1,80 m de comprimento

Repare no ponto que decide o projeto: a inclinação quase dobra. Uma escada comum a 32° você sobe e desce de frente sem pensar. A 55°, a descida é feita de costas, como numa escada de marinheiro — e isso muda quem pode usar aquele acesso.

A relação de Blondel, que serve de referência de conforto para escada comum (2 × espelho + piso entre 63 e 65 cm), não se aplica aqui: com espelho de 22 cm e piso de 28 cm o resultado dá 72 cm, fora da faixa. É uma escada deliberadamente desconfortável em troca de espaço. Se quiser a conta da escada convencional, ela está em como calcular degrau de escada.

Onde pode usar — e onde não pode

Esta é a parte que separa o projeto aprovado do reprovado, e é o que quase nenhum texto sobre o assunto diz com clareza.

A escada de degraus alternados não atende rota acessível. A NBR 9050 define os requisitos de acessibilidade da edificação, e nenhuma escada com essa inclinação e essa largura os cumpre. Ou seja: ela nunca é o acesso único a um ambiente de uso.

Ela também não serve como saída de emergência. A NBR 9077, que trata de saídas de emergência em edifícios, tem exigências de largura, inclinação e continuidade que essa tipologia não alcança. Em edificação sujeita a aprovação do Corpo de Bombeiros, ela não entra na rota de fuga.

O uso legítimo é o acesso secundário e restrito: mezanino de uso próprio, sótão, altillo, casa de máquinas, mirante, loft de dormir. Sempre com outra circulação principal existindo, ou com o ambiente sendo de permanência eventual.

Vale ainda um alerta prático: em imóvel que será alugado ou vendido, uma escada dessas costuma virar objeto de ressalva na vistoria. Registre em projeto que se trata de acesso restrito.

Como projetar, passo a passo

  1. Meça o pé-direito acabado, de piso a piso — não de piso a forro. É esse número que vai ser dividido.
  2. Escolha o espelho entre 20 e 25 cm e divida o desnível por ele. O resultado tem que ser inteiro: ajuste o espelho até fechar. Para 2,70 m com espelho de 22,5 cm dá exatamente 12 degraus.
  3. Defina qual pé começa. O primeiro degrau determina a alternância de todos os outros. Errar isso faz o usuário chegar em cima com o pé no degrau estreito.
  4. Marque a largura útil entre 60 e 80 cm. Menos que 60 cm aperta o ombro; mais que 80 cm perde o sentido, porque o recorte deixa de guiar o pé.
  5. Coloque corrimão dos dois lados. Nessa inclinação ele deixa de ser conforto e passa a ser o que segura a pessoa na descida.
  6. Garanta o espaço de chegada no topo: um patamar livre onde a pessoa possa girar o corpo antes de começar a descer de costas.

Quatro erros que aparecem na obra

1. Usar como acesso principal. É o erro que reprova projeto e o que gera acidente. Ela é acesso secundário, sempre.

2. Errar o pé do primeiro degrau. A alternância é uma sequência: começou errado, termina errado. Desenhe a planta com a marcação de pé direito e esquerdo, não só o corte.

3. Esquecer o corrimão de um dos lados. Na descida de costas a pessoa usa as duas mãos. Corrimão de um lado só é meia solução.

4. Especificar piso liso. Com essa inclinação, a área de apoio é pequena e o pé escorrega com facilidade. Peça superfície antiderrapante ou fita adesiva de segurança na borda.

De onde vem o nome

Alberto Santos Dumont construiu em Petrópolis, em 1918, a casa que ficou conhecida como A Encantada — hoje museu. Ela é célebre justamente pela escada: degraus recortados que obrigam a começar sempre com o pé direito, encaixada num vão mínimo.

O inventor tinha essa lógica em tudo: móvel que dobra, espaço que faz duas coisas, solução que tira o máximo do mínimo. A tipologia de degraus alternados existe em várias culturas e não foi inventada por ele — mas no Brasil ela ganhou o nome dele, e o nome pegou.

O olhar do arquiteto

Toda vez que um cliente pede uma Santos Dumont, eu faço a mesma pergunta antes de desenhar: quem vai subir isso, e quantas vezes por dia? Para um sótão de guardar caixa, resolve e é elegante. Para um quarto de hóspede, é um problema esperando acontecer — porque a pessoa que vai usar não conhece a escada, vai descer de frente na primeira vez e vai errar o degrau. E tem um detalhe que só a obra ensina: desenhe a alternância na planta, não só no corte. Marcelo, mestre de obra experiente, já executou pelo corte e montou espelhada — o cliente subia começando com o pé errado e chegava em cima desequilibrado. Refazer custou mais que a escada.

Fontes e referências

  • ABNT NBR 9050:2015 (Emenda 1:2020) — Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos: define os requisitos da rota acessível, que a escada de degraus alternados não atende.
  • ABNT NBR 9077:2001 — Saídas de emergência em edifícios: requisitos de largura, inclinação e continuidade das escadas de rota de fuga.
  • Museu Casa de Santos Dumont (A Encantada), Petrópolis/RJ: a casa de 1918 onde está a escada que deu origem ao nome no Brasil.
  • Referência de conforto (relação de Blondel): 2 × espelho + piso entre 63 e 65 cm — parâmetro de escada convencional, apresentado aqui como contraste.

Conclusão

A escada Santos Dumont é uma troca explícita: você entrega conforto e ganha espaço. Em vão apertado, com acesso restrito e corrimão dos dois lados, ela é uma solução elegante e legítima.

O que ela nunca é: circulação principal, rota de fuga ou acesso único. Definido isso no começo do projeto, o resto é aritmética — dividir o pé-direito por um espelho entre 20 e 25 cm e acertar em que pé começa.

Perguntas Frequentes

O que é a escada Santos Dumont?

É a escada de degraus alternados: cada degrau é recortado, com uma metade larga e outra estreita, e os recortes se alternam de um lado e do outro. Cada degrau serve a um pé só, o que permite espelhos de 20 a 25 cm e uma inclinação em torno de 50° a 60° — cerca do dobro da inclinação de uma escada comum.

Quais as medidas de uma escada de degraus alternados?

Na prática de projeto: espelho de 20 a 25 cm, parte larga do piso de 25 a 30 cm, parte estreita de 10 a 14 cm e largura de lance entre 60 e 80 cm. Para vencer um pé-direito de 2,70 m ela ocupa cerca de 1,80 m de comprimento em planta, contra aproximadamente 4,50 m de uma escada comum.

A escada Santos Dumont é permitida pela norma?

Ela não atende rota acessível pela NBR 9050 e não serve como saída de emergência pela NBR 9077. O uso legítimo é como acesso secundário e restrito — mezanino de uso próprio, sótão, casa de máquinas, mirante — sempre com outra circulação principal existindo. Nunca como acesso único a um ambiente de uso.

Por que a escada tem esse nome no Brasil?

Alberto Santos Dumont construiu em Petrópolis, em 1918, a casa conhecida como A Encantada, hoje museu, célebre pela escada de degraus recortados que obriga a começar sempre com o pé direito. A tipologia existe em várias culturas e não foi inventada por ele, mas no Brasil ganhou o seu nome.

Como saber em que pé começar?

O primeiro degrau define a alternância de todos os demais. Some o número de degraus e verifique em que lado cai o último: a pessoa precisa chegar em cima com o pé apoiado na parte larga. Desenhe a alternância na planta, com a marcação de pé direito e esquerdo, e não apenas no corte.

Lucas Serrano
— Sobre o autor

Arq. Lucas Serrano

Fundador e editor da Arqpedia. A obra veio antes da teoria — e essa ordem moldou seu olhar sobre arquitetura, construção, tecnologia e mercado.

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