Você precisa ligar o mezanino ao piso de baixo e só sobrou um vão de 1,80 m de comprimento. Uma escada comum ali não fecha: ela precisaria de uns 4,50 m para vencer o mesmo pé-direito. É exatamente esse impasse que a escada de degraus alternados resolve.
Como funciona o degrau alternado
Numa escada comum, todo degrau é inteiro e recebe qualquer um dos dois pés. Na Santos Dumont, cada degrau é recortado: metade dele é larga, a outra metade é estreita — e os recortes se alternam, um para a direita, o seguinte para a esquerda.
O resultado é que cada degrau serve a um pé só. Você sobe pisando com o pé direito nos degraus recortados à direita e com o esquerdo nos recortados à esquerda, alternando sem escolha.
Como cada pé usa um degrau diferente, a escada pode ter o dobro da altura por degrau sem que o passo fique impossível. É daí que vem a economia de espaço: menos degraus, menos comprimento em planta.
Medidas: quanto tem cada degrau
Não existe uma norma brasileira que dimensione especificamente a escada de degraus alternados. O que existe é prática consolidada de projeto, e ela gira em torno destes números:
| Escada comum | Degraus alternados | |
|---|---|---|
| Espelho (altura) | 16 a 18 cm | 20 a 25 cm |
| Piso (parte larga) | 28 a 32 cm | 25 a 30 cm |
| Piso (parte estreita) | — | 10 a 14 cm |
| Largura do lance | a partir de 1,20 m em uso comum | 60 a 80 cm |
| Inclinação | cerca de 30° a 35° | cerca de 50° a 60° |
| Para vencer 2,70 m | ~4,50 m de comprimento | ~1,80 m de comprimento |
Repare no ponto que decide o projeto: a inclinação quase dobra. Uma escada comum a 32° você sobe e desce de frente sem pensar. A 55°, a descida é feita de costas, como numa escada de marinheiro — e isso muda quem pode usar aquele acesso.
A relação de Blondel, que serve de referência de conforto para escada comum (2 × espelho + piso entre 63 e 65 cm), não se aplica aqui: com espelho de 22 cm e piso de 28 cm o resultado dá 72 cm, fora da faixa. É uma escada deliberadamente desconfortável em troca de espaço. Se quiser a conta da escada convencional, ela está em como calcular degrau de escada.
Onde pode usar — e onde não pode
Esta é a parte que separa o projeto aprovado do reprovado, e é o que quase nenhum texto sobre o assunto diz com clareza.
A escada de degraus alternados não atende rota acessível. A NBR 9050 define os requisitos de acessibilidade da edificação, e nenhuma escada com essa inclinação e essa largura os cumpre. Ou seja: ela nunca é o acesso único a um ambiente de uso.
Ela também não serve como saída de emergência. A NBR 9077, que trata de saídas de emergência em edifícios, tem exigências de largura, inclinação e continuidade que essa tipologia não alcança. Em edificação sujeita a aprovação do Corpo de Bombeiros, ela não entra na rota de fuga.
O uso legítimo é o acesso secundário e restrito: mezanino de uso próprio, sótão, altillo, casa de máquinas, mirante, loft de dormir. Sempre com outra circulação principal existindo, ou com o ambiente sendo de permanência eventual.
Vale ainda um alerta prático: em imóvel que será alugado ou vendido, uma escada dessas costuma virar objeto de ressalva na vistoria. Registre em projeto que se trata de acesso restrito.
Como projetar, passo a passo
- Meça o pé-direito acabado, de piso a piso — não de piso a forro. É esse número que vai ser dividido.
- Escolha o espelho entre 20 e 25 cm e divida o desnível por ele. O resultado tem que ser inteiro: ajuste o espelho até fechar. Para 2,70 m com espelho de 22,5 cm dá exatamente 12 degraus.
- Defina qual pé começa. O primeiro degrau determina a alternância de todos os outros. Errar isso faz o usuário chegar em cima com o pé no degrau estreito.
- Marque a largura útil entre 60 e 80 cm. Menos que 60 cm aperta o ombro; mais que 80 cm perde o sentido, porque o recorte deixa de guiar o pé.
- Coloque corrimão dos dois lados. Nessa inclinação ele deixa de ser conforto e passa a ser o que segura a pessoa na descida.
- Garanta o espaço de chegada no topo: um patamar livre onde a pessoa possa girar o corpo antes de começar a descer de costas.
Quatro erros que aparecem na obra
1. Usar como acesso principal. É o erro que reprova projeto e o que gera acidente. Ela é acesso secundário, sempre.
2. Errar o pé do primeiro degrau. A alternância é uma sequência: começou errado, termina errado. Desenhe a planta com a marcação de pé direito e esquerdo, não só o corte.
3. Esquecer o corrimão de um dos lados. Na descida de costas a pessoa usa as duas mãos. Corrimão de um lado só é meia solução.
4. Especificar piso liso. Com essa inclinação, a área de apoio é pequena e o pé escorrega com facilidade. Peça superfície antiderrapante ou fita adesiva de segurança na borda.
De onde vem o nome
Alberto Santos Dumont construiu em Petrópolis, em 1918, a casa que ficou conhecida como A Encantada — hoje museu. Ela é célebre justamente pela escada: degraus recortados que obrigam a começar sempre com o pé direito, encaixada num vão mínimo.
O inventor tinha essa lógica em tudo: móvel que dobra, espaço que faz duas coisas, solução que tira o máximo do mínimo. A tipologia de degraus alternados existe em várias culturas e não foi inventada por ele — mas no Brasil ela ganhou o nome dele, e o nome pegou.
Toda vez que um cliente pede uma Santos Dumont, eu faço a mesma pergunta antes de desenhar: quem vai subir isso, e quantas vezes por dia? Para um sótão de guardar caixa, resolve e é elegante. Para um quarto de hóspede, é um problema esperando acontecer — porque a pessoa que vai usar não conhece a escada, vai descer de frente na primeira vez e vai errar o degrau. E tem um detalhe que só a obra ensina: desenhe a alternância na planta, não só no corte. Marcelo, mestre de obra experiente, já executou pelo corte e montou espelhada — o cliente subia começando com o pé errado e chegava em cima desequilibrado. Refazer custou mais que a escada.
Fontes e referências
- ABNT NBR 9050:2015 (Emenda 1:2020) — Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos: define os requisitos da rota acessível, que a escada de degraus alternados não atende.
- ABNT NBR 9077:2001 — Saídas de emergência em edifícios: requisitos de largura, inclinação e continuidade das escadas de rota de fuga.
- Museu Casa de Santos Dumont (A Encantada), Petrópolis/RJ: a casa de 1918 onde está a escada que deu origem ao nome no Brasil.
- Referência de conforto (relação de Blondel): 2 × espelho + piso entre 63 e 65 cm — parâmetro de escada convencional, apresentado aqui como contraste.
Conclusão
A escada Santos Dumont é uma troca explícita: você entrega conforto e ganha espaço. Em vão apertado, com acesso restrito e corrimão dos dois lados, ela é uma solução elegante e legítima.
O que ela nunca é: circulação principal, rota de fuga ou acesso único. Definido isso no começo do projeto, o resto é aritmética — dividir o pé-direito por um espelho entre 20 e 25 cm e acertar em que pé começa.
Perguntas Frequentes
O que é a escada Santos Dumont?
É a escada de degraus alternados: cada degrau é recortado, com uma metade larga e outra estreita, e os recortes se alternam de um lado e do outro. Cada degrau serve a um pé só, o que permite espelhos de 20 a 25 cm e uma inclinação em torno de 50° a 60° — cerca do dobro da inclinação de uma escada comum.
Quais as medidas de uma escada de degraus alternados?
Na prática de projeto: espelho de 20 a 25 cm, parte larga do piso de 25 a 30 cm, parte estreita de 10 a 14 cm e largura de lance entre 60 e 80 cm. Para vencer um pé-direito de 2,70 m ela ocupa cerca de 1,80 m de comprimento em planta, contra aproximadamente 4,50 m de uma escada comum.
A escada Santos Dumont é permitida pela norma?
Ela não atende rota acessível pela NBR 9050 e não serve como saída de emergência pela NBR 9077. O uso legítimo é como acesso secundário e restrito — mezanino de uso próprio, sótão, casa de máquinas, mirante — sempre com outra circulação principal existindo. Nunca como acesso único a um ambiente de uso.
Por que a escada tem esse nome no Brasil?
Alberto Santos Dumont construiu em Petrópolis, em 1918, a casa conhecida como A Encantada, hoje museu, célebre pela escada de degraus recortados que obriga a começar sempre com o pé direito. A tipologia existe em várias culturas e não foi inventada por ele, mas no Brasil ganhou o seu nome.
Como saber em que pé começar?
O primeiro degrau define a alternância de todos os demais. Some o número de degraus e verifique em que lado cai o último: a pessoa precisa chegar em cima com o pé apoiado na parte larga. Desenhe a alternância na planta, com a marcação de pé direito e esquerdo, e não apenas no corte.






