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Materiais e Técnicas

Tipos de Cimento: Como Escolher CP I, II, III, IV e V

Tipos de cimento Portland: concretagem em andamento com lançamento de massa em canteiro de obra

Um construtor de Brasília comprou 800 sacos de CP V ARI para concretar o bloco de coroamento de um sobrado de 4 pavimentos. Em 72 horas, o concreto trincou.

O culpado não foi a obra: foi o cimento errado pra peça errada. CP V libera calor de hidratação altíssimo.

Em volume maciço, esse calor cozinha o concreto por dentro enquanto a superfície já esfriou. Resultado: retração térmica, fissura passante, laudo pericial.

Este guia te entrega o que importa: composição, classe de resistência, ambiente certo e os 5 erros que destroem obra. Tudo amarrado à NBR 16697:2018, a norma vigente.

O que é cimento Portland (em linguagem de obra)

Cimento Portland é um pó cinza que, ao misturar com água, vira pedra artificial. Esse "virar pedra" tem nome técnico: hidratação.

As partículas absorvem água, formam cristais e se intertravam, prendendo areia e brita numa massa monolítica que ganha resistência por anos.

Foi patenteado em 1824 por Joseph Aspdin na Inglaterra. O nome vem da Ilha de Portland, cuja rocha calcária se parece com o concreto endurecido.

A receita é simples na ideia: calcário (75 a 80%) + argila (20 a 25%) moídos finos, queimados num forno rotativo a 1450 °C. Sai dali o clínquer, em bolinhas pretas do tamanho de uma azeitona.

O clínquer sozinho endureceria em segundos. Por isso o fabricante moe o clínquer junto com 3 a 5% de gipsita (sulfato de cálcio), que segura a reação e dá tempo de trabalhar o concreto.

Dentro do clínquer existem 4 minerais que mandam no resultado: C3S (resistência inicial), C2S (resistência longa), C3A (pega rápida e calor) e C4AF (cor escura). Mudar a proporção deles muda o tipo de cimento.

A partir do clínquer + gipsita, o fabricante adiciona escória de alto-forno, pozolana ou filer calcário. É essa adição que define se o saco vira CP II, CP III ou CP IV.

Analogia rápida: imagina o clínquer como farinha pura, a gipsita como o sal que segura o ponto, e as adições (escória, pozolana, filer) como temperos que mudam sabor e tempo de cozimento.

Receita de cimento com mais clínquer = "pão branco rápido": ganha resistência cedo, custa mais e gera mais calor. Receita com mais adição = "pão integral": ganha resistência devagar, dura mais e polui menos.

NBR 16697:2018 — a norma que unificou tudo

Antes de 2018, cada tipo de cimento tinha sua própria norma: NBR 5732 (CP I), 5733 (CP V), 5735 (CP III), 5736 (CP IV), 5737 (cimentos resistentes a sulfato), 11578 (CP II), 12989 (CPB) e 13116 (baixo calor).

Era um labirinto. O engenheiro especificava "CP II-E-32" e tinha que consultar duas normas pra checar conformidade.

Em 2018, a ABNT publicou a NBR 16697 — Cimento Portland: Requisitos e unificou todas essas oito normas num documento único.

Hoje, qualquer saco vendido no Brasil tem que vir marcado conforme NBR 16697. Veja na lateral: tipo, classe de resistência, mês e ano de fabricação. Se faltar alguma dessas marcações, recuse a entrega.

Sacos de cimento Portland empilhados em palete de madeira no canteiro de obra

Os 5 tipos principais (com tabela)

A NBR 16697 reconhece 5 tipos base de cimento Portland, identificados pela sigla CP seguida de algarismo romano. A diferença entre eles é a quantidade e o tipo de adição misturada ao clínquer.

TipoComposiçãoUso típicoR$/saco 50 kg (2026)
CP I (comum)95-100% clínquer + gipsita, sem adiçõesPeças decorativas, referência de laboratório, fck baixoR$ 42 — R$ 50 (estimativa)
CP II-E (escória)56-94% clínquer + 6-34% escória de alto-fornoConcreto de uso geral, fundação, pilar, lajeR$ 38 — R$ 45 (estimativa)
CP II-F (filer)75-89% clínquer + 11-25% filer calcárioArgamassa, contrapiso, alvenaria estruturalR$ 36 — R$ 43 (estimativa)
CP II-Z (pozolana)76-94% clínquer + 6-14% pozolanaConcreto em meio úmido, reservatórioR$ 40 — R$ 46 (estimativa)
CP III (alto-forno)25-65% clínquer + 35-75% escóriaSubsolo, fundação, ambiente agressivo, calor moderadoR$ 40 — R$ 48 (estimativa)
CP IV (pozolânico)45-85% clínquer + 15-50% pozolanaBarragem, obra marítima, beira-marR$ 42 — R$ 50 (estimativa)
CP V ARI90-100% clínquer (alta finura), sem adiçõesPré-moldado, concretagem rápida, reparoR$ 48 — R$ 58 (estimativa)

Marcas principais no Brasil: Votorantim, InterCement, Holcim, Cimpor, CSN Cimentos e Mizu.

Cada uma vende a maioria dos tipos acima, mas a disponibilidade muda por região. Em São Paulo é fácil achar CP III; no Nordeste, CP IV domina.

Quando usar cada um (regra de bolso)

CP I: raro na obra. Usado em laboratório, peça artística e situação onde a pureza importa mais que o preço.

CP II: o curinga. 8 em cada 10 obras residenciais usam CP II-E ou CP II-F. Equilibra preço, resistência e trabalhabilidade.

CP III: alta resistência a sulfato e cloreto. Vai bem em subsolo úmido, esgoto, fundação em terreno agressivo. Bônus: menos clínquer = menos CO2.

CP IV: a escolha para obra marítima e barragem. Resiste a água do mar e tem ganho de resistência progressivo (continua endurecendo aos 90, 180, 360 dias).

CP V ARI: só use quando o cronograma manda. Pré-moldado, viga protendida, reparo emergencial. Em peça grossa, esquece — vai trincar.

Curiosidade de fábrica: a NBR 16697 permite incorporar até 10% de filer calcário no próprio CP V sem perder a sigla ARI, o que reduz custo. Confira a composição na ficha técnica do fabricante.

Em laje pré-moldada e treliçada, o CP V acelera a desforma de 14 para 3 dias, liberando a forma para reutilização. Em obra que aluga forma, a economia paga o cimento mais caro.

Classes de resistência: 25, 32 ou 40 MPa

Depois do tipo (CP II, III etc.), o saco ainda traz uma classe de resistência.

Esse número é a tensão mínima que o cimento garante aos 28 dias, em MPa (megapascal). Quanto maior, mais forte o concreto que ele consegue produzir.

A NBR 16697 padroniza três classes:

  • Classe 25: resistência mínima 25 MPa. Argamassa, contrapiso, calçada, concreto não-estrutural.
  • Classe 32: resistência mínima 32 MPa. É a classe padrão para concreto estrutural em casa e prédio.
  • Classe 40: resistência mínima 40 MPa. Pré-moldado, viga protendida, estrutura de alto desempenho.

Cuidado: a classe do cimento NÃO é o fck do concreto. Um saco de CP II-E-32 pode produzir concreto com fck 20, 25 ou 30 MPa.

Tudo depende do traço (proporção de cimento, areia, brita, água). Quem define o fck é o projeto estrutural, conforme NBR 6118.

Em ambiente urbano comum, a NBR 6118 exige fck mínimo de 25 MPa para concreto armado. Beira-mar ou indústria sobe pra 30 ou 35 MPa.

Como cruzar tipo e classe? Para casa de 2 pavimentos no interior, CP II-E-32 resolve. Sobrado em capital, CP II-F-32 ou CP III-32. Subsolo de prédio em zona litorânea, CP III-40 ou CP IV-40.

O preço do saco varia pouco entre classes 25 e 32 (R$ 2 a R$ 4 de diferença). Subir pra 40 sai mais salgado e raramente compensa em obra residencial padrão.

CPB — o cimento branco do concreto aparente

O CPB (Cimento Portland Branco) tem a mesma química do Portland comum, mas usa matérias-primas com pouquíssimo ferro e manganês.

É o ferro que dá a cor cinza ao cimento normal; tirando o ferro, sai branco.

Custa cerca de 3 a 5 vezes mais que CP II. Fica restrito a aplicações onde a cor importa: rejunte de porcelanato, fachada de concreto aparente branco e mobiliário urbano com pigmento.

Dois tipos pela NBR 16697:

  • CPB Estrutural (classes 25, 32 e 40): serve pra estrutura aparente branca, tipo as obras do Oscar Niemeyer e do Tadao Ando.
  • CPB Não Estrutural: só pra rejunte, argamassa decorativa e revestimento. Não aguenta carga estrutural.

Se sua obra tem concreto aparente colorido (pigmentado), use CPB. Sobre cimento cinza, qualquer pigmento vira tom de poça de barro.

Cura do concreto (NBR 14931): o passo que ninguém respeita

Cura é manter o concreto úmido depois da concretagem. Sem cura, a água da mistura evapora antes do cimento terminar de reagir, e a peça perde até 40% da resistência projetada.

A NBR 14931 — Execução de estruturas de concreto define os prazos mínimos de cura úmida (molhar a peça, cobrir com manta saturada ou aplicar produto químico curador):

  • CP V ARI: mínimo 3 dias (algumas referências adotam 7 por segurança).
  • CP I e CP II: mínimo 7 dias.
  • CP III e CP IV: mínimo 14 dias (alguns projetistas chegam a 28).

Quanto mais lento o ganho de resistência, mais longa precisa ser a cura. CP III e CP IV ficam ganhando força até 1 ano depois da concretagem — mas só se a água continuar disponível pra reação.

Truque de obra: na laje, deixe uma lâmina de 2 cm de água em cima por uma semana, contida por cordão de areia úmida no perímetro. Funciona melhor que aspersão.

Em pilar e viga vertical, manta geotêxtil molhada amarrada com fio plástico segura a umidade por 24 horas entre regas. Em dia quente, regue de manhã, ao meio-dia e no fim da tarde.

O sinal de cura malfeita aparece como fissura fina superficial em forma de teia de aranha (retração plástica), nas primeiras 12 horas após o lançamento.

Quando essas trincas aparecem, a peça já perdeu resistência e a única saída é tratamento corretivo com selante epóxi — caro e estético-dependente.

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5 erros que rachuram a obra (e o laudo)

Erro 1 — CP V ARI em peça maciça. Bloco de coroamento, radier espesso, viga baldrame robusta. O calor de hidratação ultrapassa 70 °C no miolo, o exterior esfria e a peça trinca por retração térmica. Use CP III ou CP IV.

Erro 2 — CP I em ambiente úmido. Sem adições, o CP I tem baixa resistência a sulfato e cloreto.

Em subsolo, fundação enterrada ou contato com solo, escolha CP III ou CP IV. CP I serve pra laboratório, não pra obra real.

Erro 3 — Concreto sem aditivo plastificante. Adicionar água extra no caminhão pra "ficar mais mole" aumenta o fator água/cimento e derruba o fck.

O caminho certo é aditivo plastificante (0,3 a 0,8% sobre o peso do cimento), sem mexer na água.

Erro 4 — Fck especificado em projeto ≠ fck na obra. Engenheiro pede C30 (fck 30 MPa), encarregado compra C20 pra economizar.

Quando o laudo aparece, a estrutura já está pronta. Cheque a nota da concreteira contra o memorial do projeto.

Erro 5 — Aceitar concreto sem ensaio de slump. O cone de Abrams (NBR NM 67) mede a consistência. Slump fora da faixa especificada (60 a 180 mm conforme uso) = concreto fora do traço. Devolva o caminhão.

Conclusão

Escolher cimento não é "comprar o mais barato do depósito". É ler o projeto, identificar o ambiente, dimensionar a peça e fechar o pedido pelo tipo + classe corretos.

A regra de ouro: CP II pra obra residencial padrão; CP III ou CP IV pra subsolo e ambiente agressivo; CP V ARI só em pré-moldado; CPB pra aparente colorido.

Cure por 7 a 14 dias e jamais aceite concreto sem ensaio de slump.

Próximo passo: pegue o memorial do seu projeto, veja o fck especificado e cruze com a tabela deste post. Se ainda restar dúvida, fale com o calculista antes de comprar 800 sacos do tipo errado.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre CP II e CP V ARI?

CP II tem adições (escória, pozolana ou filer calcário) e ganho de resistência ao longo de 28 dias. É o cimento de uso geral em obra residencial.

CP V ARI tem clínquer puro com finura alta, libera muito calor de hidratação e atinge resistência em 1 a 3 dias. Serve pra pré-moldado, viga protendida e reparo emergencial — não pra peça maciça.

Posso usar CP V ARI em pilar de casa?

Em pilar fino (até 20×20 cm) sim, mas o ganho de tempo raramente compensa o custo extra do CP V.

O risco grave é usar CP V em peça volumosa: radier espesso, bloco de coroamento de estaca, viga baldrame robusta. O calor de hidratação cozinha o miolo, o exterior esfria mais rápido e a peça trinca por retração térmica.

Quanto custa um saco de cimento de 50 kg em 2026?

Estimativa de mercado: R$ 38 a R$ 55 dependendo do tipo, marca (Votorantim, InterCement, Holcim, Cimpor, CSN, Mizu) e região.

CP V e CPB ficam no topo da faixa (R$ 48-58). CP II-F é o mais barato. Cote sempre com entrega incluída — frete pesa em obra fora de capital.

O que é fck e onde ele aparece?

Fck é a resistência característica do concreto à compressão aos 28 dias, medida em MPa (megapascal). Vem definido no projeto estrutural, conforme NBR 6118.

Mínimos comuns: 20 MPa em concreto armado básico, 25 MPa em ambiente urbano (CAA II), 30 MPa em ambiente marítimo ou industrial (CAA III/IV).

Qual cimento é mais sustentável?

CP III (alto-forno) e CP IV (pozolânico). Eles substituem boa parte do clínquer por escória siderúrgica ou pozolana (cinza volante, cinza de casca de arroz).

Cada tonelada de clínquer evitada economiza cerca de 800 kg de CO2 atmosférico (estimativa CBIC). Em obra grande, a escolha por CP III chega a reduzir 30% da pegada de carbono do concreto.

LF

Arq. Lucas Ferreira

Arquiteto e urbanista, editor sênior da Arqpedia. Escreve sobre materiais, normas técnicas e execução de obra com foco em decisão prática para arquitetos e estudantes.