Mariana recebeu o primeiro projeto residencial seis meses depois de formada. Cliente animado, terreno bom, 180 m². Ela cobrou R$ 3.000 pelo "projeto completo" e ficou orgulhosa.
Pela referência da Resolução CAU/BR 122/2015, esse mesmo projeto deveria custar entre R$ 22.000 e R$ 28.000 só de honorários — fora a RRT, o deslocamento e os tributos.
A diferença não é falta de mercado: é falta de método. Esta tabela de honorários de arquitetura existe para te dar o método.
Você vai sair daqui sabendo o que a tabela CAU realmente é, três jeitos legítimos de cobrar, faixas de R$/m² praticadas em 2026 e os cinco erros que afundam o preço do iniciante.
O que é a Tabela de Honorários do CAU
A Tabela de Honorários é o conjunto de percentuais e métodos publicado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) como referência de remuneração para serviços de arquitetura e urbanismo no Brasil.
Pense nela como um GPS de preços: ela não obriga você a passar por uma rua específica, mas mostra o caminho que faz sentido — e o que está fora dele.
A base atual é a Resolução CAU/BR n.º 122/2015, que define a metodologia de cálculo e traz, em seu Anexo I, os percentuais sugeridos sobre o Custo Estimado da Obra (CEO) por tipo de empreendimento e por etapa de projeto.
Detalhe importante: a tabela é referência, não preço mínimo obrigatório. O CADE proíbe tabelamento de honorários em profissões liberais.
Ou seja, o conselho pode orientar e defender a faixa, mas não pode obrigar ninguém a cobrar exatamente aqueles valores.
Resolução CAU/BR 122/2015: como funciona o cálculo
A resolução parte de um princípio simples: o trabalho do arquiteto é proporcional ao porte e à complexidade da obra. Quanto maior e mais detalhada a obra, maior o esforço técnico — e maior a remuneração.
A fórmula básica é direta: aplica-se um percentual sobre o Custo Estimado da Obra (CEO).
O CEO é calculado com base no CUB (Custo Unitário Básico) do Sinduscon do seu estado, multiplicado pela área a construir.
O Anexo I da resolução cruza tipologia (residencial, comercial, industrial, urbanismo, interiores, paisagismo) com faixas de área e devolve o percentual aplicável.
Tipologias com mais detalhamento — interiores, restauro, hospitalar — usam percentuais mais altos.
Há também coeficientes de complexidade. Um sobrado simples não exige o mesmo esforço de um hospital ou de um prédio em terreno acidentado. A resolução prevê ajustes para refletir isso na cobrança.
Leia também: Registro no CAU: documentos, custos e passo a passo
Os 3 métodos legítimos de cobrança
Cobrar honorários de arquitetura não é "chutar um valor que pareça razoável". É escolher o método certo para o tipo de serviço — e os três métodos aceitos pelo mercado e pela resolução CAU são:
| Método | Quando usar | Faixa típica |
|---|---|---|
| % sobre o custo da obra | Projeto completo de arquitetura. Modelo clássico, recomendado pela resolução CAU/BR 122/2015. | 8% a 12% residencial · 6% a 9% comercial · 5% a 8% industrial |
| R$ por m² | Projetos residenciais, comerciais e de interiores. O método mais usado no mercado brasileiro hoje pela facilidade de comunicação. | R$ 60/m² a R$ 800/m² conforme tipologia e padrão (ver seção abaixo) |
| Hora técnica | Consultoria, parecer, laudo, acompanhamento de obra, vistorias, escopos abertos. | R$ 150 a R$ 400/h para arquiteto sênior, conforme cidade e especialização |
Na prática, escritórios estruturados misturam os métodos: cobram percentual sobre obra para o projeto, R$/m² para interiores e hora técnica para reuniões extras fora do contrato. Cada modalidade resolve um tipo de risco.
Quem cobra hora técnica sem saber o próprio custo de hora está jogando moeda. Antes de combinar valor com cliente, faça a conta interna: despesas fixas mensais divididas por horas faturáveis, mais margem.
Leia também: Quanto cobra um arquiteto no Brasil em 2026
Tabela 2026: faixas de R$/m² por tipologia
Os valores abaixo são estimativas de mercado compiladas a partir de relatos em comunidades de arquitetos, anúncios de escritórios e da própria referência CAU. Servem para você se posicionar — não como tabelamento.
| Tipologia | Faixa de R$/m² | Observação |
|---|---|---|
| Residencial unifamiliar padrão | R$ 80 a R$ 250 | Casa térrea ou sobrado simples, projetos com até três disciplinas. |
| Residencial alto padrão | R$ 250 a R$ 800 | Detalhamento fino, paisagismo, automação, acompanhamento de obra completo. |
| Comercial (loja, clínica) | R$ 100 a R$ 300 | Depende do nível de identidade visual e exigência da operação. |
| Corporativo (escritórios) | R$ 80 a R$ 180 | Em geral por pavimento; ganha escala com áreas maiores. |
| Reforma | R$ 60 a R$ 200 | Variação enorme: depende de levantamento, estrutura existente e prazo. |
| Interiores residenciais | R$ 120 a R$ 500 | Inclui detalhamento de marcenaria, especificação e acompanhamento. |
Os valores sobem quando o projeto exige BIM completo, compatibilização entre disciplinas e visitas de obra semanais. Caem quando o cliente entrega levantamento pronto e a obra é executada por construtora estruturada.
Etapas do projeto e percentual por fase (NBR 13532)
A norma ABNT NBR 13532 organiza o desenvolvimento de um projeto de arquitetura em etapas sequenciais. Cada etapa entrega documentos próprios e absorve uma fatia diferente do honorário total.
| Etapa | Descrição | % do honorário |
|---|---|---|
| LV – Levantamento | Coleta de dados, medição, sondagem e diagnóstico do terreno. | 5% |
| EP – Estudo Preliminar | Concepção, partido arquitetônico, estudo de massas e implantação. | 10% |
| AP – Anteprojeto | Plantas, cortes e fachadas com definições gerais já aprovadas. | 15% |
| PL – Projeto Legal | Peças para aprovação na prefeitura, corpo de bombeiros e demais órgãos. | 20% |
| PB – Projeto Básico | Definições construtivas completas para orçamento detalhado. | 25% |
| PE – Projeto Executivo | Detalhes construtivos, especificações e compatibilizações para obra. | 25% |
Soma 100%. Essa divisão protege o arquiteto: se o cliente desiste depois do Anteprojeto, você recebeu pelo que entregou (30% do total) — e não fica com o prejuízo das fases já trabalhadas.
Dica de contrato: defina cronograma de pagamento amarrado a cada entrega. Aceitação do EP libera o pagamento da EP, e por aí vai. Evita inadimplência no meio do processo.
Leia também: ABNT NBR 13532: as etapas do projeto de arquitetura
RRT, custos cartoriais e modalidade fiscal
Honorários são uma parte do que entra na proposta. Antes de fechar o preço, some os custos fixos que acompanham o serviço — eles não vão no bolso do arquiteto, mas precisam estar precificados.
A RRT (Registro de Responsabilidade Técnica) é o documento exclusivo do CAU que vincula arquiteto e obra.
Ela equivale, conceitualmente, à ART do CREA, mas atenção: ART é do engenheiro via CREA; RRT é do arquiteto via CAU. Não misture.
O valor da RRT é definido anualmente pelo plenário do CAU/BR e varia por modalidade do serviço. Para não trabalhar com número desatualizado, sempre confira em transparenciacau.gov.br antes de gerar boleto.
Some também eventuais custos cartoriais de assinatura digital, taxas municipais de aprovação e ISS (Imposto Sobre Serviços), que varia de 2% a 5% conforme o município.
MEI ou ME: qual escolher
A modalidade fiscal define quanto sobra do honorário no fim do mês. Para arquiteto autônomo, há dois caminhos principais:
- MEI (Microempreendedor Individual): faturamento anual limitado a R$ 81.000 (limite vigente até a regulamentação do novo teto prometido em projeto de lei). Recolhe DAS mensal único, com valor próximo de R$ 70 a R$ 80 dependendo do setor.
- ME no Simples Nacional: indicado para quem ultrapassa o limite do MEI. Arquitetura cai no Anexo III (alíquota inicial de 6%) ou Anexo V (alíquota inicial de 15,5%) dependendo do fator R, que compara folha de pagamento e receita.
Importante: a escolha entre Anexo III e V tem impacto direto no lucro. Antes de abrir CNPJ, vale a hora de um contador especializado em arquitetura — economia anual costuma pagar a consultoria várias vezes.
Leia também: Como abrir um escritório de arquitetura do zero
5 erros que destroem o honorário do arquiteto
Os erros abaixo aparecem com frequência absurda nos primeiros cinco anos de carreira — e custam, somados, dezenas de milhares de reais por ano.
Ganhar o projeto perdendo dinheiro é a definição de prejuízo. Posicione-se na faixa e defenda o preço com escopo, prazo e portfólio — não com desconto.
RRT, deslocamento, impressões, plotagem, software, contador, tributos. Some tudo antes de fechar. Despesa esquecida é lucro que evapora.
Sem contrato, qualquer mudança de escopo vira discussão. O contrato deve listar fases entregues, prazos, condições de pagamento e regras para alterações.
Trabalhar sem RRT é exercício irregular — e o cliente fica sem documento legal vinculando o projeto a você. Em caso de problema, você responde sem proteção.
"R$ 150 a hora" pode estar abaixo do seu custo real. Faça a conta: custos fixos mensais ÷ horas faturáveis no mês = custo da hora antes da margem.
Próximo passo: pare de chutar preço
A tabela do CAU não é cárcere — é régua. Ela existe para você ter um número defensável quando o cliente perguntar "por que tanto?". A resposta não é "porque sim"; é "porque o método chega aqui".
Se a parte técnica está sólida e falta o lado de gestão, os cursos de BIM, escritório e portfólio da Mobflix foram feitos para arquitetos sairem do "cobrar pouco, fazer muito".
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A tabela de honorários do CAU é obrigatória?
Não. A Resolução CAU/BR 122/2015 fixa metodologia e percentuais de referência, mas o CADE proíbe preços mínimos obrigatórios para profissões liberais.
A tabela serve como orientação técnica e parâmetro para defender o seu preço, não como tabelamento.
Qual percentual cobrar sobre o custo da obra?
Residencial unifamiliar costuma ficar entre 8% e 12% do custo da obra; comercial entre 6% e 9%; industrial entre 5% e 8%.
O percentual cai quando a área cresce e sobe quando a complexidade ou o número de disciplinas envolvidas aumenta.
Quanto custa emitir a RRT em 2026?
O valor é definido anualmente pelo plenário do CAU/BR e varia por categoria de serviço. Consulte sempre transparenciacau.gov.br para o valor vigente.
Diferente da ART do CREA, a RRT é emitida exclusivamente por arquitetos urbanistas registrados.
MEI ou ME: qual a melhor para cobrar honorários?
O MEI tem limite de faturamento anual fixado em lei (R$ 81.000 até a regulamentação de novo teto) e cobra DAS mensal único.
Acima desse limite, a alternativa natural é Microempresa no Simples Nacional, com alíquota que parte de 6% no Anexo III. Cada caso pede contador.
Posso cobrar abaixo da tabela CAU para conseguir o cliente?
Pode, mas a conta dificilmente fecha. O preço cobre tributos, software, RRT, deslocamentos e horas.
Cobrar abaixo do custo gera prejuízo silencioso e mina a percepção de valor do mercado inteiro. Defenda a faixa em vez de competir por preço.



