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História e Estilos

Paulo Mendes da Rocha: 5 Obras Emblemáticas

MuBE de Paulo Mendes da Rocha: viga de concreto de 60 metros suspensa sobre a praça em São Paulo

Em 1970, no pavilhão brasileiro da Expo de Osaka, visitantes japoneses pisaram numa praça coberta sem coluna no centro. Era concreto bruto, era brasileiro, e funcionava como cidade.

O autor desse pavilhão era um arquiteto paulistano de 41 anos. Trinta e seis anos depois, ele ganharia o Pritzker. Cinquenta anos depois, deixaria São Paulo marcada por edifícios que parecem desafiar a gravidade.

Este guia destrincha as cinco obras de Paulo Mendes da Rocha que você precisa conhecer, mais o que faz a arquitetura dele inconfundível dentro do brutalismo brasileiro.

1. A cena: o pavilhão que fez o mundo olhar para o Brasil

Expo de Osaka, Japão, março de 1970. O Brasil precisa de um pavilhão de 1.000m² para representar um país inteiro. O orçamento é apertado, o prazo curto, e o terreno é uma esquina pequena.

Paulo Mendes da Rocha, em equipe com Júlio Katinsky, Ruy Ohtake, Jorge Caron e Paulo Henrique Paranhos, resolveu a equação de um jeito inesperado.

Eles jogaram o pavilhão para o subsolo e cobriram o vazio com uma laje ondulada de concreto, sustentada por apenas três apoios.

O resultado: uma praça pública gratuita no meio da feira mais cara do mundo. O Brasil vencia o concurso com uma ideia, não com um edifício.

Esse projeto cravou o DNA do PMR: generosidade urbana (devolver espaço público) somada a estrutura heroica (vão grande, poucos apoios). Tudo o que veria depois é variação desse tema.

2. Quem foi Paulo Mendes da Rocha (1928-2021)

Nasceu em Vitória (ES), em 25 de outubro de 1928, filho de engenheiro portuário. Aos 6 anos a família foi para São Paulo, onde ele viveria os 86 anos seguintes.

Formou-se arquiteto pela Faculdade de Arquitetura Mackenzie em 1954, e logo se aproximou da turma da FAU-USP — núcleo do que viria a ser a chamada escola paulista.

Em 1961 projetou seu primeiro grande edifício público: o Ginásio do Clube Atlético Paulistano, com cobertura de concreto sustentada por seis pilares perimetrais e tirantes de aço.

Aos 33 anos, ele já fazia o que viraria sua assinatura.

Durante a ditadura militar, foi aposentado compulsoriamente da FAU-USP em 1969 pelo AI-5, só voltando a lecionar nos anos 1980. Nesse exílio interno, fez seus projetos mais radicais.

Morreu em São Paulo, em 23 de maio de 2021, aos 92 anos.

Retrato do arquiteto Paulo Mendes da Rocha em São Paulo, abril de 2006
Paulo Mendes da Rocha em São Paulo, 2006 — ano em que recebeu o Pritzker. Foto: Marcos Issa / CC BY 2.0.

3. Brutalismo paulista: o concreto que mostra o esforço

Brutalismo vem do francês béton brut, "concreto bruto" — termo cunhado por Le Corbusier nos anos 1950. No Brasil, virou movimento próprio em São Paulo.

A receita paulista tem três ingredientes. Primeiro, concreto aparente: a estrutura é o acabamento, sem reboco, sem disfarce. As marcas da fôrma de madeira ficam visíveis.

Segundo, estruturas heroicas: grandes vãos, balanços ousados, pilares afastados. O edifício mostra como se sustenta, e isso é a beleza.

Terceiro, relação com a cidade: térreo livre, pilotis, praça pública debaixo do prédio. O edifício devolve chão para quem caminha.

O pai do movimento foi Vilanova Artigas (autor da FAU-USP, 1961-1969). PMR foi aluno e herdeiro, e levou o método ao limite — onde Artigas teorizava, PMR construía com brutalidade poética.

4. As 5 obras emblemáticas para conhecer

Da lista de mais de cem projetos construídos, estas cinco condensam toda a poética do arquiteto. Estão em ordem cronológica.

Pavilhão Brasileiro em Osaka (1970)

O ponto de partida da carreira internacional, descrito acima. Demolido após a Expo, sobrevive em fotografias e maquetes. É o primeiro projeto onde PMR usa a laje ondulada de concreto como artefato urbano.

A ideia: o pavilhão é um relevo, não um volume. O visitante caminha por cima e por baixo da laje, como num parque coberto.

MuBE — Museu Brasileiro da Escultura (1986-1995)

No Jardim Europa, em São Paulo, PMR projetou um museu enterrado para que o terreno virasse praça. Acima, uma única viga de concreto de 60 metros de vão livre atravessa o lote sobre dois apoios.

Embaixo da viga, o ar livre. As esculturas ficam ao tempo, sob a sombra do gigante de concreto. O museu propriamente dito está sob o chão.

É a síntese do método: o edifício some, o espaço público aparece, e a engenharia faz o anúncio. Aberto ao público desde 1995. Hoje opera como espaço cultural sob nova gestão.

Pinacoteca do Estado de SP (reforma 1993-1998)

Aqui PMR não projeta do zero — conserta. O edifício de Ramos de Azevedo (1900), na Luz, era um quase-ruína sem coberturas.

PMR fecha os pátios internos com claraboias de aço e vidro e abre passarelas suspensas que cruzam o vão.

O resultado é fascinante: a luz natural inunda salas que ficaram décadas escuras, e o ferro novo dialoga sem disfarce com a alvenaria centenária. Velho e novo se enfrentam sem se misturar.

É um dos melhores exemplos brasileiros de retrofit em patrimônio. Vale uma visita guiada ao edifício da Pinacoteca para ver de perto.

Pátio interno da Pinacoteca do Estado de São Paulo após a reforma de Paulo Mendes da Rocha: claraboia metálica e passarelas suspensas
Pátio interno da Pinacoteca do Estado: PMR cobriu o vão original com claraboia de aço e vidro. Foto: Wilfredor / CC BY-SA.

Capela São Pedro Apóstolo, Campos do Jordão (1987)

A escala pequena, o gesto grande. Um cubo de concreto pousado sobre quatro pilares finos, no meio do mato. Por dentro, uma única nave com luz lateral rasante.

É a prova de que o método PMR funciona fora da cidade: a capela paira sobre o terreno em declive, sem cortar a paisagem. A laje vira teto, parede e identidade ao mesmo tempo.

Para muitos críticos é o projeto mais lírico do arquiteto, em escala doméstica.

Capela São Pedro Apóstolo de Paulo Mendes da Rocha em Campos do Jordão: cubo de concreto sobre pilares finos no meio da mata
Capela São Pedro Apóstolo (Campos do Jordão, 1987): caixa de concreto pousada sobre quatro apoios. Foto: Stevenfruitsmaak / CC BY-SA 2.0.
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Sesc 24 de Maio, São Paulo (2001-2017)

Projeto em parceria com o escritório MMBB Arquitetos (Fernando Mello Franco, Marta Moreira, Milton Braga). Reaproveita o esqueleto da antiga loja Mesbla na 24 de Maio.

PMR e MMBB fazem o impensável: colocam uma piscina no terraço a 80 metros do chão, no Centro de São Paulo. O ginásio fica suspenso entre lajes. As rampas internas substituem corredores.

O edifício foi inaugurado em agosto de 2017, quatro anos antes da morte do arquiteto. É a obra-testamento — onde PMR aplica tudo o que sabia sobre verticalidade urbana num edifício preexistente.

Sesc 24 de Maio em São Paulo: fachada do edifício projetado por Paulo Mendes da Rocha e MMBB Arquitetos
Sesc 24 de Maio (2017): retrofit vertical de 13 andares com piscina no topo. Foto: Mariordo / CC BY 2.0.

5. Pritzker, RIBA e Leão de Ouro: a tríplice coroa

PMR é o único arquiteto brasileiro a ter as três maiores honrarias da arquitetura mundial. Cada uma reconhece uma face diferente do trabalho dele.

O Pritzker (2006) — o "Nobel da arquitetura" — premia uma obra inteira. Veio 18 anos depois do prêmio dado a Oscar Niemeyer (1988). PMR é o 2º brasileiro a vencer.

O Leão de Ouro da Bienal de Veneza (2016) reconheceu o conjunto da obra. O júri destacou a "extraordinária contribuição à arquitetura contemporânea, com generosidade ao espaço público".

A Royal Gold Medal do RIBA (2017), entregue em Londres, é a medalha mais antiga em arquitetura, criada em 1848.

PMR foi o terceiro brasileiro a recebê-la, depois de Lúcio Costa (1985) e Niemeyer (1998).

Três prêmios, três continentes, três visões do mesmo arquiteto. Caso raro de unanimidade crítica.

6. Os princípios de projeto: fazer mais com menos

PMR não escreveu manifesto, mas falou em entrevistas e aulas. Os princípios são consistentes ao longo dos 70 anos de carreira.

Estrutura é arquitetura. Não há "engenheiro que calcula" e "arquiteto que desenha" — o gesto formal nasce da forma estrutural. Pilar, viga e laje viram protagonistas, não coadjuvantes.

Generosidade urbana. Todo projeto devolve chão para a cidade. Pilotis livres, térreos abertos, passagens públicas. O edifício é uma dívida com o espaço público que ele ocupa.

Fazer mais com menos. Programa complexo, materiais simples. Concreto, aço, vidro, madeira — sem revestimento, sem ornamento. A redução de materiais aumenta a clareza espacial.

Tempo longo. O edifício precisa envelhecer bem. Concreto bruto envelhece com dignidade — pega pátina, ganha textura. PMR projetava para 200 anos, não para o lançamento.

7. PMR vs Niemeyer vs Lina Bo Bardi

Três gigantes da arquitetura brasileira do século 20, três escolas diferentes. Entender as diferenças ajuda a ler cada um.

Oscar Niemeyer (escola carioca): curvas, plasticidade, concreto que parece flutuar. A forma vem antes da estrutura. Brasília, Pampulha, Niterói. Sedução visual imediata.

Lina Bo Bardi (escola própria, ítalo-paulista): rusticidade poética, valorização do popular, ligação com artes plásticas.

O MASP é o ícone — vão de 70 metros sobre quatro pilares vermelhos. Mistura modernidade europeia com cultura brasileira.

Paulo Mendes da Rocha (escola paulista): brutalismo, ângulos retos, generosidade urbana. O método vem antes da forma. O concreto bruto é o herói, não o adereço.

Um modo simples de lembrar: Niemeyer faz você admirar. Lina faz você sentir. PMR faz você entender.

8. O legado: quem segue a escola paulista hoje

PMR formou gerações na FAU-USP entre 1958 e 1998 (com interrupção pela ditadura). O DNA dele continua em escritórios contemporâneos.

MMBB Arquitetos (Mello Franco, Moreira, Braga) foi o parceiro do Sesc 24 de Maio. Tocaram projetos junto desde 1991 — são herdeiros diretos.

Una Arquitetos (Cristiane Muniz, Fábio Valentim, Fernanda Barbara, Fernando Viégas) — formados nos anos 1990 — assinam habitação social, escolas e bibliotecas com ortogonalidade rígida e concreto aparente.

Brasil Arquitetura (Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz) — Ferraz foi pupilo de Lina Bo Bardi e cresceu no diálogo com PMR. Restaurações sensíveis ao patrimônio, como o Museu do Pão (Ilópolis).

Andrade Morettin Arquitetos (Vinicius Andrade, Marcelo Morettin) trazem o método PMR para edifícios institucionais e culturais (Museu da Imagem e do Som, novo projeto do MIS Brasil).

A escola paulista virou um dos polos mais reconhecíveis da arquitetura brasileira contemporânea — e tem PMR na origem.

Conclusão: o arquiteto que devolveu a cidade

Paulo Mendes da Rocha não fez prédios bonitos para fotografar — fez espaços que mudam a maneira de andar pela cidade. O MuBE virou praça. A Pinacoteca virou luz. O Sesc 24 virou verticalidade pública.

O legado dele é uma pergunta: o que sua obra devolve ao mundo? Para PMR, projetar era um ato político de devolução.

O próximo passo, se você quer mergulhar fundo na história da arquitetura brasileira, é estudar com quem entende. Os cursos de história da arquitetura na Mobflix têm aulas dedicadas à escola paulista e ao brutalismo.

Perguntas Frequentes

Quem foi Paulo Mendes da Rocha?

Arquiteto brasileiro nascido em Vitória (ES), em 25 de outubro de 1928, e falecido em São Paulo, em 23 de maio de 2021.

Formou-se pelo Mackenzie em 1954, lecionou na FAU-USP por mais de 30 anos e tornou-se o segundo brasileiro a vencer o Pritzker, em 2006. É considerado o maior nome da escola paulista de arquitetura.

Qual a obra mais famosa de Paulo Mendes da Rocha?

O MuBE (Museu Brasileiro da Escultura), no Jardim Europa em São Paulo, com sua viga de concreto de 60 metros de vão livre suspensa sobre a praça, é o cartão-postal da obra dele.

Em segundo lugar costuma vir a reforma da Pinacoteca do Estado, e em terceiro o Sesc 24 de Maio. Os três são visitáveis na capital paulista.

Qual a diferença entre Paulo Mendes da Rocha e Oscar Niemeyer?

Niemeyer é da escola carioca: curvas sensuais, leveza, concreto que parece flutuar. A forma vem antes da estrutura.

PMR é da escola paulista: concreto bruto, ângulos retos, estruturas heroicas que mostram o esforço. O método vem antes da forma. Um seduz pela imagem, o outro convence pela construção.

O que é brutalismo paulista?

Corrente surgida na FAU-USP a partir dos anos 1950 que adota concreto aparente, grandes vãos estruturais e generosidade do espaço público como princípios.

O termo vem do francês béton brut (concreto bruto), cunhado por Le Corbusier. Vilanova Artigas é o pai do movimento no Brasil, PMR o herdeiro mais consequente.

Onde visitar obras de Paulo Mendes da Rocha em São Paulo?

Em SP há três visitas obrigatórias: Pinacoteca do Estado (estação Luz), MuBE (Jardim Europa) e Sesc 24 de Maio (Centro, próximo à Praça da República).

Todos os três são abertos ao público, com ingresso barato ou gratuito. Dá para fazer o roteiro inteiro em um dia, andando de metrô entre eles.

LF

Arq. Lucas Ferreira

Arquiteto e Urbanista (FAU-USP). Pesquisa arquitetura brasileira moderna e contemporânea, com foco na escola paulista e na cultura do concreto aparente. Editor da Arqpedia.